O ícone Eliseu Martins é uma das Lendas da Contabilidade, saiba por quê!

O Lendas da Contabilidade, realizado na manhã de sábado (22/05), oportunizou aos profissionais contábeis revisitarem fatos importantes da história da profissão e da sua evolução, relatados pelo professor Dr. Eliseu Martins, que deu uma verdadeira aula sobre contabilidade. Esse quinto episódio da série Lendas da Contabilidade foi transmitido pela TV CRCRS, no YouTube, e está disponível para acesso.

Medalha João Lyra, Doutor Honoris Causa, Professor Emérito de duas faculdades de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, entre muitas outras condecorações, Eliseu Martins brindou o público com relatos de suas vivências, em um bate-papo conduzido pelas presidentes do CRCRS, Ana Tércia L. Rodrigues, e da AIC e Abracicon, Maria Clara Bugarim.

Ao apresentar o vasto currículo do homenageado, a presidente Ana Tércia destacou que Eliseu Martins é uma das primeiras referências bibliográficas na Contabilidade de custos do País, que segue trabalhando em vários programas de graduação e pós-graduação, foi diretor da CVM e do Banco Central, e representante do Brasil na ONU para assuntos de Contabilidade e divulgação de informações, dentre inúmeras outras atividades.

Para a presidente da Abracicon, Maria Clara Bugarim, o professor Eliseu Martins é um dos precursores do caminho de internacionalização da Contabilidade brasileira.

Fundador e membro emérito do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), Eliseu Martins recordou que, no Brasil, um passo importante para a convergência da contabilidade brasileira às normas internacionais foi a criação do CPC, por meio da Resolução CFC n º 1.055/2005, na gestão de José Martonio Alves Coelho à frente do Conselho Federal de Contabilidade. Já a implantação do Comitê não foi tarefa fácil. Somente após anos de discussão, com muito esforço e graças à habilidade de conciliação da então presidente do CFC, Maria Clara Bugarim, foi possível alcançar a comunhão de objetivos das seis entidades que deram origem ao CPC: Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa), Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) e Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi).

A criação do CPC teve por objetivo atender a necessidade de convergência internacional das normas contábeis, centralizar a emissão dessas normas, bem como de representação e processo democrático na produção das informações contábeis, envolvendo seus elaboradores, auditores, usuários, academias, agentes de intermediação e governo.

Convergências às normas internacionais de contabilidade

Em uma verdadeira aula sobre a construção da convergência de normas internacionais de contabilidade, Eliseu Martins explicou que esse processo começou fora do Brasil, muito antes da criação do Comitê.

Na segunda metade do século XX, com a internacionalização da economia e a expansão das empresas transnacionais, veio a necessidade da convergência das normas contábeis. A ONU foi a primeira organização internacional a trabalhar nesse sentido, mas, além das questões técnicas, a entidade se via às voltas com aspectos políticos, o que dificultava o avanço de acordos.

Na época, havia três grandes blocos de países: germânicos, com a contabilidade voltada à proteção aos credores; latinos, cuja contabilidade era dominada pelas regras fiscais; e os anglo-saxônicos, focados no investidor em ações minoritárias.

Na década de 1970, surgiu o International Accounting Standards Committees (IASC), com o objetivo de aproximar as regras de uma dezena de países, o que, contudo, não se efetivou. A mudança somente ocorreu a partir de 2005, quando o IASC já havia dado origem ao International Accounting Standards Board (IASB) – a União Europeia passou a adotar as normas do IASB, principalmente, com base na linha anglo-saxônica, de informações centradas no interesse do investidor, porém, naquele momento, aumentado o poder do credor.

Foi um grande sucesso nos mercados de ações, de capitais, de compra e venda de empresas e, também, nos mercados de análise de crédito, embora alguns países tenham se aproximado mais rapidamente do que outros, como no caso da Alemanha, cujo regramento era bastante diferente dos demais países europeus.

No Brasil, a linha da contabilidade italiana, seguida inicialmente, foi substituída pela normatização americana, muito semelhante a anglo-saxônica.

Não foi uma mudança tranquila, houve muita resistência, como as posições divergentes. Um importante oponente ideológico, como lembrou a presidente Ana Tércia, foi o professor Olivio Koliver, que presidiu o CRCRS em duas gestões, 1980-1983 e 1994-1997. “Os debates eram muito ricos, a gente aprendia muito e hoje a contabilidade se ressente da falta desses embates”, afirmou ela.  O outro nome que contribuiu para enriquecer os debates foi lembrado pela presidente Maria Clara, o professor Antônio Lopes de Sá, presidente da Abracicon por três mandatos e membro de honra de academias na França, Espanha e Estados Unidos.

As mudanças ocorridas foram significativas e inspiraram, em 1976, a criação da Comissão de Valores Mobiliários e a Lei nº 6.404/76 – Lei das Sociedades Anônimas. A partir daí, o Brasil tornou-se o primeiro país do mundo não saxônico a aplicar equivalência patrimonial e fazer consolidação de balanços, além do regime de competências que passou a ser extremamente forte. “A Lei das Sociedades Anônimas nos colocou em uma posição ímpar na contabilidade mundial, praticamente igual às contabilidades norte-americana e inglesa, que eram as que tinham foco no gestor e investidor”, afirmou Eliseu Martins.

Entretanto, com o decorrer do tempo, as normas do IASB foram avançando e a Lei das Sociedades Anônimas permaneceu onde estava. Eram necessárias novas adequações. Com a Lei 11.638/2007, parte da Lei das S.A. foi reformada e a legislação brasileira harmonizada aos padrões internacionais. Também foi essa a lei que efetivamente segregou fisco de contabilidade

Profissional da contabilidade

Havia três imagens da profissão de contador, no mundo todo. No Brasil, o profissional da contabilidade era visto como um empregado das empresas contratados para atender o interesse do fisco. Entre os alemães, a figura do contador era extremamente respeitada, porque se tratava de uma atividade voltada aos interesses do credor. Já, nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde a contabilidade há muito é voltada aos interesses dos investidores, a profissão está entre as primeiras profissões mais respeitadas.

O professor Eliseu Martins avalia que foi com a implantação das normas internacionais que veio o grande salto da imagem da profissão perante a sociedade. O profissional deixou de apenas seguir regras preestabelecidas e passou a julgar, enfrentar conflitos e tomar decisões; o serviço não tem mais apenas um único usuário, que era o fisco, e passou a ter vários. Isso representou uma evolução.

Transformações da academia

A nova visão da educação continuada e integrada com a interdisciplinaridade e seus reflexos na transformação da academia também foram tema dos questionamentos das presidentes Ana Tércia e Maria Clara ao professor Eliseu. Segundo ele, juntamente com diversos professores da USP, sempre defendeu a posição de que é preciso não somente ensinar, mas também provocar o crescimento das condições de ensino. Nesse sentido, lembrou das incursões pelo Brasil, para estimular instituições de ensino superior, em diferentes Estados, a criarem cursos de pós-graduação em Ciências Contábeis, a fim de aumentar o número de professores titulados.

Desse movimento, resultou também a criação de um curso preparatório para mestrado, destinado a professores de universidades públicas, com vistas a qualificar o ensino.

Ana Tércia recordou que, hoje, o curso de Ciências Contábeis tem grande atratividade para os jovens, figurando entre as opções mais procuradas de curso superior.

O lado pessoal

Sobre a atratividade dos cursos de Ciências Contábeis para os jovens, a presidente Maria Clara perguntou quais atributos da profissão contábil conquistaram os dois filhos do professor Eliseu Martins. Ele assegura que nunca buscou influenciar os filhos e que ambos iniciaram formações em outras áreas, antes se voltarem para a contabilidade. O mesmo ocorreu com ele, que era funcionário do Banco do Brasil quando arriscou abraçar o magistério nas Ciências Contábeis, atendendo a um convite do seu professor. Na época, a troca da promissora carreira de bancário foi um susto para a família, mas ele garante que tem sido muito feliz na profissão.

Interdisciplinaridade

Sobre a importância da interdisciplinaridade, o professor alerta que o profissional contábil que estudar apenas a Contabilidade não sairá do lugar. “Hoje, é preciso entender de tecnologia, conhecimentos básicos de economia, compreensão mínima do linguajar jurídico e noções de administração e, principalmente, capacidade de relacionamento humano, entre outros. Isto acontece com os profissionais de todas as áreas”, afirma, relatando que há uma grande demanda e que já estão sendo ministrados cursos de inteligência contábil para profissionais de outras áreas, bem como institutos educacionais e grupos de estudo interdisciplinares, por exemplo, nas áreas de direito societário, direito tributário e da contabilidade.

A presidente Ana Tércia, que leciona na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul comentou que é preciso atentar para o potencial de a contabilidade atender ao interesse de profissionais das áreas de investimento, de mercado de capitais, e conselhos de administração de empresas – um nicho que se abre para a profissão contábil e que pode ser explorado comercial, acadêmica, intelectual e cientificamente.

Ao final do programa a apoiadora da série Lendas da Contabilidade, Safeweb, sorteou dez certificados digitais, e-CPFs.

A quinta edição da série Lendas da Contabilidade está disponível da TV CRCRS, YouTube. Confira!