Blockchain e os impactos para a contabilidade

Um tema que gera polêmica e está em alta, o Blockchain ficou conhecido por viabilizar moedas digitais e foi o tema de um painel na Conferência Interamericana de Contabilidade (CIC), evento referência da área contábil na América Latina.

Na manhã desta quarta-feira (20), os painelistas Carl Amorim e Oliver Cunningham, especialistas no assunto, discorreram sobre essa tecnologia e seus impactos na área da contabilidade.

Em tradução livre do inglês, Blockchain significa cadeia de blocos e funciona como um grande livro-caixa público no qual são registradas todas as transações, de forma rápida e segura. Para os especialistas que participaram do painel, trata-se de um instrumento importante para garantir que ninguém consiga efetuar fraudes, tornando cada moeda rastreável desde o momento de sua criação.

Segundo o executivo do Blockchain Research Institute no Brasil, Carl Amorin, que tem doutorando no assunto e é coeditor, tradutor e autor da apresentação do livro Blockchain Revolution de Don Tapscott, o Blockchain une tecnologia e finanças e tem como vantagem a otimização de diversos processos além dos financeiros, possuindo uma estrutura de alta segurança, e tendo um grande potencial tecnológico que pode ajudar inclusive nos processos contábeis, facilitando o trabalho dos clientes e dos contadores.

“Essa tecnologia nos faz ter que ressignificar a forma como trabalhamos, não vai acabar com o banco, mas nós teremos um novo tipo de banco. Não vai acabar com o cartório, mas vamos ter um novo tipo de cartório. Então, com o Blockchain, fica muito mais fácil, por exemplo, assinar um contrato digitalmente”, explica o palestrante.

Para ele, essa nova tecnologia também demonstra que teremos que começar a ir além da criptomoeda. “Nós temos que entender que um criptoativo é algo que junta o papel de moeda e papel de título imobiliário, por exemplo. Mas ela também pode representar uma ação da Petrobras ou um kilowatt de energia. Então, temos que nos perguntar: quem regulamenta isso? É a Aneel? É o banco? E mais importante para os contadores: quem e como se contabiliza isso?”

Durante o painel, ambos os palestrantes trouxeram explicações sobre o conceito de Blockchain, exemplos que já acontecem pelo mundo e, mais do que respostas prontas, abriram uma discussão sobre os pontos positivos e os desafios que os contadores e o mundo terão para se adequar à essa nova onda tecnológica.

Para Oliver Cunningham, essa tecnologia já é o futuro e já está aqui. Oliver é Sócio responsável pela área de transformação digital e inovação da KPMG e Fundador da LEAP, o braço de inovação da KPMG no Brasil, que ajuda a própria empresa e outras grandes corporações a se transformarem digitalmente através da inovação aberta.

“O futuro já está aqui, só está mal distribuído. Nós, contadores, temos clientes que ainda estão lidando com papel, mas também já tem muita gente fazendo tudo online. Então, ainda está muito heterogêneo esse espaço e, à medida em que isso acontece, a gente vai ter que entender como lidar com essa transição. Nós vivemos um espaço de transição nesse futuro que já está aqui hoje”, disse Oliver.

Definitivamente, de acordo com o representante da KPMG, não estamos falando de coisas do futuro e, dependendo de como formos lidar com essa inovação, pode ser uma transição positiva. “Esse é o ritmo da inovação que está acontecendo, pois viemos de um ciclo onde tínhamos uma inovação a cada vinte anos, agora, é importante entender esse novo ritmo da inovação, pois esse ritmo não irá desacelerar”, reflete o painelista.

Para Carl Amorim, o Blockchain traz uma expansão das possibilidades do que se é possível fazer em qualquer nível e em qualquer tamanho de empresa. “Se isso antes era uma barreira de entrada para as pequenas e médias empresas – pois só as grandes tinham acesso a mercados de capitais e operações financeiras, hoje qualquer um pode ter isso”, afirma.

“Hoje podemos programar cadeias de suprimentos com contratos, para pagar um fornecedor que deixou uma mercadoria em consignação, ou para pagar uma transportadora, ou para pagar um imposto. A empresa não precisa mais de um departamento enorme de contas a pagar, a contabilização disso é feita automaticamente na boca do caixa, liberando uma série de operações que hoje são feitas manualmente pelos departamentos de contabilidade ou de administração das empresas”, explica.

Oliver fala que o mundo dos contratos inteligentes, assunto muito debatido nesta manhã por ambos os painelistas, tem um grande significado para os contadores. “Uma das coisas que fazemos bastante hoje como contador é tentar entender como classificar determinada transação. Agora, isso já vai estar resolvido, pois já terá um contrato inteligente em algum lugar que alguém já programou para aquela contabilidade estar resolvida, então isso vai eliminar a nossa carga transacional, mas vai amplificar a demanda para que a gente escreva o contrato certo de saída”.

O primordial para entender a Blockchain é ver que essa tecnologia traz o primeiro registro de origem de qualquer coisa, rastreamento de qualquer coisa desde a hora em que ela é criada. É o que diz Carl, relembrando um exemplo durante o evento: “O Wall Mart fez um estudo antes de aplicar a Blockchain. Antes desta tecnologia, para você localizar o fabricante, o fornecedor de qualquer produto alimentício dentro de uma loja, demorava em torno de 15 dias, o que causava prejuízos milionários para a empresa, pois alguns carregamentos vinham com produtos contaminados e o prejuízo na cadeia inteira daquele produto foi enorme, obrigando a loja a tirar aqueles produtos das suas prateleiras por 15 dias. Hoje, com a Blockchain, o Wall Mart demora três segundos para localizar o fornecedor de um produto”.

Com isso, os palestrantes concluem que essa tecnologia dá garantia de propriedade, pois hoje basta buscar na Blockchain e já é possível saber quem era o dono daquela propriedade ou daquele tipo de ativo, de uma obra de arte, de um animal de raça ou qualquer outra coisa que se precise garantir o direito de propriedade.

“Temos uma grande responsabilidade como profissionais que estão citando essas regras e, hoje, vivemos ainda no passado. Um exemplo disso é quando recebemos uma Nota Fiscal e trabalhamos a partir dela. Agora, com a Blockchain, nós temos a oportunidade de entrar antes do jogo começar. Isso nos faz refletir em como é que isso muda a realidade para nós contadores? Para mim, isso é transformador: é focar na tecnologia como uma solução de problemas”, conclui Oliver.

Fonte: Carol Veiga – Comunicação CFC